Gênero:
Trabalho
apresentado em evento acadêmico (XXIII Semana de História - UEM)
Autoras:
Me.
Giceli
Warmling do Nascimento; Maria Rita C. Ayala
Instituição:
Universidade Estadual de Maringá
A
Grande Parada Pliniana: aspectos da propaganda integralista
A Ação Integralista
Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado, foi um movimento político
profundamente conectado ao universo do fascismo baseando-se em tradições e
identidades nacionais. Constituiu, dessa forma, uma ideologia e um grupo
político que viviam na tensão intermitente entre o desejo de se mostrar parte
de algo maior, e de se firmar como puramente nacional (BERTONHA, 2014).
A ideologia e a estrutura
organizativa do integralismo são de suma importância para definir a natureza do
movimento. A estrutura, desde o Chefe Nacional aos militantes de base,
constitui uma organização burocrática e autoritária, elementos indissociáveis
na organização do integralismo. A burocracia manifesta-se através de um
complexo de órgãos, funções, papéis, comportamentos minuciosamente previstos
pelos estatutos, resoluções do Chefe e rituais. O caráter “totalitário”, por
sua vez, tem-se através das relações rígidas entre os órgãos de enquadramento
disciplinado dos militantes e da submissão autoritária e fidelidade aos
superiores hierárquicos (TRINDADE, 1979).
O período de legalidade
do movimento foi de 1932 a 1937. Nos primeiros anos, o integralismo caminhou
devagar, organizando sua estrutura, seus rituais e suas forças internas. Em
1934, a AIB tomou corpo: tornou-se uma organização semimilitar, com uma milícia
armada e ênfase na obediência dos membros a seus superiores e especialmente ao
Chefe Nacional, Plínio Salgado. Com o intuito de divulgação e disseminação da
ideologia, congressos e encontros se sucederam no período.
No ano de 1936, apesar da
opinião contrária de alguns membros, o integralismo abandonou os ideais de
movimento revolucionário e converteu-se em um partido político. Dessa forma, a
AIB alterou sua estrutura e participou das eleições legislativas. No ano
seguinte, o nome do Chefe Nacional foi lançado como candidato à presidência da
República. (BERTONHA, 2006).
Em comemoração a este fato, os
integralistas promoveram um grandioso desfile que foi registrado por cineastas
do período e narrado pelos periódicos integralistas. O filme foi,
posteriormente, chamado de “A Grande Parada Pliniana”.
A
propaganda integralista por meio dos periódicos
A imprensa (aqui
destacamos o jornal) ocupava um lugar de destaque na rede constituída pela AIB.
Era por este meio que a doutrina chegava até ao militante e mantinha-se viva.
Sobre a importância do jornal
para a organização do movimento, ideologia e propaganda, Cavalari (1999, p. 79)
afirma:
O jornal era
organizado não só com o fim precípuo de doutrinar mas, mais do que isso, de transmitir
a doutrina de modo uniforme. Os jornais do interior, aqueles que chegavam até o
militante mais distante, eram organizados de modo a reproduzir os jornais
maiores, editados nos grandes centros onde se concentrava a elite dirigente do
Movimento. No caso, São Paulo e Rio de Janeiro.
O primeiro jornal de
circulação nacional, e uma das fontes nas quais este artigo se baseia, é o Monitor Integralista. Criado em 1933, no
Rio de Janeiro, era de circulação interna e foi estruturado como um “diário
oficial”. Sua aquisição por parte dos núcleos era obrigatória, fazendo com que
as ordens fossem conhecidas por todos, não havendo (teoricamente) margem para
desobediência.
A respeito da organização
interna e funções do periódico Monitor
Integralista, Oliveira (2009, p. 151) salienta:
[...] o periódico
versava sobre a organização do movimento. Era nestas páginas que editavam toda
a estrutura organizativa em forma de organogramas, além de como deveriam ser
estruturadas as secretarias em todas as suas esferas (nacional, estadual e nuclear).
Definia como deveriam ser os uniformes e as divisas. Fazia convocações para reuniões
e congressos. Publicava o nome dos membros que assumiam cargos, tanto nas secretarias
nacionais, quanto regionais. Além disso, transmitiam as resoluções da chefia nacional,
todas elas assinadas pelo “Chefe Nacional” Plínio Salgado.
Assim, os
periódicos tinham o importante papel de divulgar as ações do movimento tanto
para os integralistas quanto para aqueles que não eram membros do grupo. Por
meio dos jornais, o movimento descrevia os eventos realizados nos diferentes
núcleos integralistas pelo país, divulgava os estudos sobre a doutrina
integralista, apresentava os líderes, a estrutura do movimento, bem como fazia
a propaganda dos filmes integralistas.
A
propaganda integralista por meio do cinema
O cinema estava
presente na estrutura da Secretaria Nacional de Propaganda da AIB e foi mais um
dos meios para difundir a sua propaganda política. Os filmes eram valorizados
pelo seu papel formativo e pela capacidade de “encantar” o público, por isso, o
papel do cinema nacional foi tão discutido nas páginas dos jornais
integralistas. O filme nacional, na visão do grupo, deveria trazer os valores
nacionais, familiares e até mesmo religiosos, ou seja, os filmes deveriam
expressar a máxima integralista: Deus, Pátria e Família.
Assim,
cineastas como Alfredo Baumgarten e Américo Matrangola (filiados ao movimento)
teriam a importante missão de registrar todos os acontecimentos da AIB e assim,
transmitir a doutrina integralista para o maior número de pessoas. Os
integralistas também foram filmados por cineastas como João Baptista Groff e
João Carriço, estes, aparentemente, não eram filiados ao movimento, mas
registraram alguns eventos protagonizados pela AIB. Dessa forma, esses
cineastas, querendo ou não, colaboraram para a difusão da doutrina e da
propaganda integralista.
Um
dos momentos mais importantes da AIB foi registrado em 1937, durante a
apresentação de Plínio Salgado como candidato às eleições presidenciais de
1938. O filme, que conta com um pouco mais de 5 minutos, conseguiu sobreviver
ao tempo e mostra esse importante evento integralista que foi denominado como
“A Grande parada pliniana”.
“A
Grande Parada Pliniana”
O filme “A Grande Parada
Pliniana”, provavelmente, mostra o desfile integralista realizado no dia 13 de
junho de 1937, no Rio de Janeiro. O evento foi uma comemoração à vitória de
Plínio Salgado no Plebiscito que definiu o nome do candidato integralista para
as Eleições Presidenciais de 1938. A autoria do filme ainda é desconhecida, mas
acredita-se que ele possa ter sido realizado pela empresa cinematográfica Cinédia, pois, segundo o jornal Monitor Integralista (nº. 21,
17/07/1937, p. 8), foi essa empresa que no dia 14 de junho, um dia depois do
Plebiscito integralista, filmou o encontro entre a comitiva integralista e
Getúlio Vargas no Palácio do Catete (NASCIMENTO, 2016).
O jornal Monitor Integralista relata com especial entusiasmo não somente a cerimônia, mas também a concentração e preparativos dos militantes para este evento:
25.000 “Camisas-Verdes” desfilaram, na
tarde de 13 de Junho, pela avenida principal do Rio de Janeiro. Desde as
primeiras horas da manhã notava-se em toda a cidade, intenso movimento de “Camisas-Verdes”.
Nos subúrbios mais afastados, nos bairros
pobres e nos bairros ricos, nas estações ferroviárias, pelas praças e pelas
ruas, viam-se formaturas, embarques, desembarques, movimento de integralistas
em marcha para um ponto determinado. (MONITOR INTEGRALISTA, 17/07/1937, p. 5)
Cerca das 17 horas teve início o grande
desfile dos “Camisas-Verdes” da Guanabara pela Avenida Rio Branco. [...] Duas
bandas de música integralistas e os pequenos tambores dos Plinianos davam
ritmos à marcha que se fez com garbo e correção [...] cuja música produziu a
melhor impressão. O entusiasmo dos integralistas comunicava-se aos assistentes.
[...] A impressão causada por essa demonstração pública do Integralismo aos que
a presenciaram, foi de grandiosidade e de surpresa. Para se julgar da massa de
integralistas que desfilaram na Avenida, basta dizer que da Praça Paris à Praça
Mauá, em colunas compactas por nove, toda a grande artéria central se achava
tomada de um e outro lado. Toda essa massa verde, depois de desfilar perante o
Chefe Nacional que se achava na Praça Paris, cercado das altas autoridades do
Sigma, debandou na mais perfeita ordem. [...] Com esse impressionante desfile
encerrou a Ação Integralista Brasileira, os atos oficiais referentes a
proclamação do seu candidato ao próximo leito presidencial de 3 de Janeiro.
(MONITOR INTEGRALISTA, 17/07/1937, p. 5).
De fato, a descrição do
jornal bate com as cenas do filme, os lugares descritos, os líderes
apresentados, etc. No entanto, apesar da grandiosidade do evento, há de se
ressaltar a supervalorização do acontecimento por parte dos redatores do
jornal. O filme, inclusive, mostra que não havia uma organização tão rígida
como a imprensa integralista costumava propalar. (NASCIMENTO, 2016).
Considerações Finais
Tanto a imprensa
integralista quanto os filmes produzidos pelo/para o movimento buscavam mostrar
para a população o caráter ordeiro e grandioso da AIB. Era por meio desses
canais (além de outros), que o grupo difundia sua doutrina e se apresentava à
sociedade. O intuito era de ganhar novos seguidores e fidelizar aqueles que já
participavam do movimento, assim seria possível levar a AIB ao poder. Foi o que
o movimento/partido buscou fazer desde a sua formação em 1932. No entanto,
apesar das pretensões e de todos os esforços empreendidos, a AIB não obteve
sucesso nem por meio de uma “revolução integral”, nem por meio das eleições
(que não ocorreram devido à decretação do Estado Novo), nem por meio de um
golpe contra o Estado em 1938. Apesar disso, muitos elementos característicos
do grupo, como o autoritarismo, o militarismo, tão presentes na cultura
política brasileira, permaneceram e, pelo visto, permanecem até hoje no cenário
político nacional.
Fontes
MONITOR
INTEGRALISTA. Rio de Janeiro: Órgão oficial da Ação Integralista Brasileira, n.
21, 17/07/1937. (Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro).
A
Grande Parada Pliniana. Produtor desconhecido. p/b, não-ficção, 1937. (Eduardo
Escorel).
Referências
Bibliográficas
BERTONHA, J. F. Integralismo: problemas, perspectivas e questões historiográficas.
Maringá: Eduem, 2014.
____. Fascismo,
Nazismo e Integralismo. São Paulo: Ática, 2006.
CAVALARI, R. M. F. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no
Brasil (1932-1937). Bauru: EDUSP, 1999.
NASCIMENTO, G. W.
do. O cinema como instrumento de
propaganda política integralista (1932-1937). 196f. Dissertação (Mestrado
em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Estadual de
Maringá, Maringá, 2016.
OLIVEIRA, R. S. de. Imprensa integralista, imprensa militante (1932-1937). 388f. Tese
(Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul, Porto Alegre, 2009.
TRINDADE. H. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo:
Difusão Editorial, 1979.






