domingo, 19 de janeiro de 2020

A Grande Parada Pliniana: aspectos da propaganda integralista


Gênero: Trabalho apresentado em evento acadêmico (XXIII Semana de História - UEM)
Autoras: Me. Giceli Warmling do Nascimento; Maria Rita C. Ayala
Instituição: Universidade Estadual de Maringá

A Grande Parada Pliniana: aspectos da propaganda integralista

A Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado, foi um movimento político profundamente conectado ao universo do fascismo baseando-se em tradições e identidades nacionais. Constituiu, dessa forma, uma ideologia e um grupo político que viviam na tensão intermitente entre o desejo de se mostrar parte de algo maior, e de se firmar como puramente nacional (BERTONHA, 2014).
A ideologia e a estrutura organizativa do integralismo são de suma importância para definir a natureza do movimento. A estrutura, desde o Chefe Nacional aos militantes de base, constitui uma organização burocrática e autoritária, elementos indissociáveis na organização do integralismo. A burocracia manifesta-se através de um complexo de órgãos, funções, papéis, comportamentos minuciosamente previstos pelos estatutos, resoluções do Chefe e rituais. O caráter “totalitário”, por sua vez, tem-se através das relações rígidas entre os órgãos de enquadramento disciplinado dos militantes e da submissão autoritária e fidelidade aos superiores hierárquicos (TRINDADE, 1979).
O período de legalidade do movimento foi de 1932 a 1937. Nos primeiros anos, o integralismo caminhou devagar, organizando sua estrutura, seus rituais e suas forças internas. Em 1934, a AIB tomou corpo: tornou-se uma organização semimilitar, com uma milícia armada e ênfase na obediência dos membros a seus superiores e especialmente ao Chefe Nacional, Plínio Salgado. Com o intuito de divulgação e disseminação da ideologia, congressos e encontros se sucederam no período.
No ano de 1936, apesar da opinião contrária de alguns membros, o integralismo abandonou os ideais de movimento revolucionário e converteu-se em um partido político. Dessa forma, a AIB alterou sua estrutura e participou das eleições legislativas. No ano seguinte, o nome do Chefe Nacional foi lançado como candidato à presidência da República. (BERTONHA, 2006).

Em comemoração a este fato, os integralistas promoveram um grandioso desfile que foi registrado por cineastas do período e narrado pelos periódicos integralistas. O filme foi, posteriormente, chamado de “A Grande Parada Pliniana”.



A propaganda integralista por meio dos periódicos
A imprensa (aqui destacamos o jornal) ocupava um lugar de destaque na rede constituída pela AIB. Era por este meio que a doutrina chegava até ao militante e mantinha-se viva.
Sobre a importância do jornal para a organização do movimento, ideologia e propaganda, Cavalari (1999, p. 79) afirma:

O jornal era organizado não só com o fim precípuo de doutrinar mas, mais do que isso, de transmitir a doutrina de modo uniforme. Os jornais do interior, aqueles que chegavam até o militante mais distante, eram organizados de modo a reproduzir os jornais maiores, editados nos grandes centros onde se concentrava a elite dirigente do Movimento. No caso, São Paulo e Rio de Janeiro.

O primeiro jornal de circulação nacional, e uma das fontes nas quais este artigo se baseia, é o Monitor Integralista. Criado em 1933, no Rio de Janeiro, era de circulação interna e foi estruturado como um “diário oficial”. Sua aquisição por parte dos núcleos era obrigatória, fazendo com que as ordens fossem conhecidas por todos, não havendo (teoricamente) margem para desobediência.
A respeito da organização interna e funções do periódico Monitor Integralista, Oliveira (2009, p. 151) salienta:

[...] o periódico versava sobre a organização do movimento. Era nestas páginas que editavam toda a estrutura organizativa em forma de organogramas, além de como deveriam ser estruturadas as secretarias em todas as suas esferas (nacional, estadual e nuclear). Definia como deveriam ser os uniformes e as divisas. Fazia convocações para reuniões e congressos. Publicava o nome dos membros que assumiam cargos, tanto nas secretarias nacionais, quanto regionais. Além disso, transmitiam as resoluções da chefia nacional, todas elas assinadas pelo “Chefe Nacional” Plínio Salgado.

            Assim, os periódicos tinham o importante papel de divulgar as ações do movimento tanto para os integralistas quanto para aqueles que não eram membros do grupo. Por meio dos jornais, o movimento descrevia os eventos realizados nos diferentes núcleos integralistas pelo país, divulgava os estudos sobre a doutrina integralista, apresentava os líderes, a estrutura do movimento, bem como fazia a propaganda dos filmes integralistas.

A propaganda integralista por meio do cinema
            O cinema estava presente na estrutura da Secretaria Nacional de Propaganda da AIB e foi mais um dos meios para difundir a sua propaganda política. Os filmes eram valorizados pelo seu papel formativo e pela capacidade de “encantar” o público, por isso, o papel do cinema nacional foi tão discutido nas páginas dos jornais integralistas. O filme nacional, na visão do grupo, deveria trazer os valores nacionais, familiares e até mesmo religiosos, ou seja, os filmes deveriam expressar a máxima integralista: Deus, Pátria e Família.
            Assim, cineastas como Alfredo Baumgarten e Américo Matrangola (filiados ao movimento) teriam a importante missão de registrar todos os acontecimentos da AIB e assim, transmitir a doutrina integralista para o maior número de pessoas. Os integralistas também foram filmados por cineastas como João Baptista Groff e João Carriço, estes, aparentemente, não eram filiados ao movimento, mas registraram alguns eventos protagonizados pela AIB. Dessa forma, esses cineastas, querendo ou não, colaboraram para a difusão da doutrina e da propaganda integralista.
            Um dos momentos mais importantes da AIB foi registrado em 1937, durante a apresentação de Plínio Salgado como candidato às eleições presidenciais de 1938. O filme, que conta com um pouco mais de 5 minutos, conseguiu sobreviver ao tempo e mostra esse importante evento integralista que foi denominado como “A Grande parada pliniana”.

“A Grande Parada Pliniana”
O filme “A Grande Parada Pliniana”, provavelmente, mostra o desfile integralista realizado no dia 13 de junho de 1937, no Rio de Janeiro. O evento foi uma comemoração à vitória de Plínio Salgado no Plebiscito que definiu o nome do candidato integralista para as Eleições Presidenciais de 1938. A autoria do filme ainda é desconhecida, mas acredita-se que ele possa ter sido realizado pela empresa cinematográfica Cinédia, pois, segundo o jornal Monitor Integralista (nº. 21, 17/07/1937, p. 8), foi essa empresa que no dia 14 de junho, um dia depois do Plebiscito integralista, filmou o encontro entre a comitiva integralista e Getúlio Vargas no Palácio do Catete (NASCIMENTO, 2016).


O jornal Monitor Integralista relata com especial entusiasmo não somente a cerimônia, mas também a concentração e preparativos dos militantes para este evento:

25.000 “Camisas-Verdes” desfilaram, na tarde de 13 de Junho, pela avenida principal do Rio de Janeiro. Desde as primeiras horas da manhã notava-se em toda a cidade, intenso movimento de “Camisas-Verdes”.
Nos subúrbios mais afastados, nos bairros pobres e nos bairros ricos, nas estações ferroviárias, pelas praças e pelas ruas, viam-se formaturas, embarques, desembarques, movimento de integralistas em marcha para um ponto determinado. (MONITOR INTEGRALISTA, 17/07/1937, p. 5)

Cerca das 17 horas teve início o grande desfile dos “Camisas-Verdes” da Guanabara pela Avenida Rio Branco. [...] Duas bandas de música integralistas e os pequenos tambores dos Plinianos davam ritmos à marcha que se fez com garbo e correção [...] cuja música produziu a melhor impressão. O entusiasmo dos integralistas comunicava-se aos assistentes. [...] A impressão causada por essa demonstração pública do Integralismo aos que a presenciaram, foi de grandiosidade e de surpresa. Para se julgar da massa de integralistas que desfilaram na Avenida, basta dizer que da Praça Paris à Praça Mauá, em colunas compactas por nove, toda a grande artéria central se achava tomada de um e outro lado. Toda essa massa verde, depois de desfilar perante o Chefe Nacional que se achava na Praça Paris, cercado das altas autoridades do Sigma, debandou na mais perfeita ordem. [...] Com esse impressionante desfile encerrou a Ação Integralista Brasileira, os atos oficiais referentes a proclamação do seu candidato ao próximo leito presidencial de 3 de Janeiro. (MONITOR INTEGRALISTA, 17/07/1937, p. 5).

De fato, a descrição do jornal bate com as cenas do filme, os lugares descritos, os líderes apresentados, etc. No entanto, apesar da grandiosidade do evento, há de se ressaltar a supervalorização do acontecimento por parte dos redatores do jornal. O filme, inclusive, mostra que não havia uma organização tão rígida como a imprensa integralista costumava propalar. (NASCIMENTO, 2016).

Considerações Finais
            Tanto a imprensa integralista quanto os filmes produzidos pelo/para o movimento buscavam mostrar para a população o caráter ordeiro e grandioso da AIB. Era por meio desses canais (além de outros), que o grupo difundia sua doutrina e se apresentava à sociedade. O intuito era de ganhar novos seguidores e fidelizar aqueles que já participavam do movimento, assim seria possível levar a AIB ao poder. Foi o que o movimento/partido buscou fazer desde a sua formação em 1932. No entanto, apesar das pretensões e de todos os esforços empreendidos, a AIB não obteve sucesso nem por meio de uma “revolução integral”, nem por meio das eleições (que não ocorreram devido à decretação do Estado Novo), nem por meio de um golpe contra o Estado em 1938. Apesar disso, muitos elementos característicos do grupo, como o autoritarismo, o militarismo, tão presentes na cultura política brasileira, permaneceram e, pelo visto, permanecem até hoje no cenário político nacional.

Fontes
MONITOR INTEGRALISTA. Rio de Janeiro: Órgão oficial da Ação Integralista Brasileira, n. 21, 17/07/1937. (Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro).

A Grande Parada Pliniana. Produtor desconhecido. p/b, não-ficção, 1937. (Eduardo Escorel).

Referências Bibliográficas
BERTONHA, J. F. Integralismo: problemas, perspectivas e questões historiográficas. Maringá: Eduem, 2014.

____. Fascismo, Nazismo e Integralismo. São Paulo: Ática, 2006.

CAVALARI, R. M. F. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: EDUSP, 1999.

NASCIMENTO, G. W. do. O cinema como instrumento de propaganda política integralista (1932-1937). 196f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2016.

OLIVEIRA, R. S. de. Imprensa integralista, imprensa militante (1932-1937). 388f. Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009.

TRINDADE. H. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: Difusão Editorial, 1979.