quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Colônia Nova-Itália: o início da colonização italiana no brasil (1836-1850). Imigração e identidade antes da “grande emigração”


Gênero: Iniciação Científica
Autora: Caroline Cavilha dos Santos Hashimoto
Instituição: Universidade Estadual de Maringá

Colônia Nova-Itália: o início da colonização italiana no brasil (1836-1850). 
Imigração e identidade antes da “grande emigração”

Introdução
A Colônia Nova Itália foi formada no atual município de São João Batista, em Santa Catarina, quase 40 anos antes do início da chamada “grande emigração”, termo usado para referir-se aos anos de maior fluxo de saída de italianos da península itálica (1870-1970). Boiteux (1998, p. 31-41) indica que foram 186 colonos que desembarcaram em março de 1836, na baía norte da Ilha de Santa Catarina, em Desterro, atual Florianópolis. Porém, o autor ressalta que alguns resolveram permanecer em Desterro. O restante seguiu para o município de São Miguel, às margens do Rio Tijucas-Grande. Hoje o lugar fica situado nos atuais municípios de São João Batista e Major Gercino, no Alto Vale do Rio Tijucas (Boiteux 1998, p. 30).
Os colonos vieram motivados pela propaganda feita por dois estrangeiros que na época moravam na capital catarinense: Henrique Ambauer Schutel e Carlo Demaria. O assunto é pouco abordado academicamente, mas trata-se da primeira colônia de ítalos do Brasil. Sendo assim, a pesquisa procura identificar como seria a identidade de pessoas que não eram italianas propriamente ditas e que foram parar na zona rural de um país que também não tinha identidade nacional consolidada. É válido observar que não eram consideradas italianas ainda por terem saído do Reino da Sardenha, o qual se transformou em Itália somente depois, com a unificação.


Materiais e métodos
Para obter as respostas possíveis, foram analisados discursos, falas e relatórios dos presidentes provinciais de Santa Catarina disponíveis online (1836-1850), duas certidões antigas de posse do memorialista e também descendente, José Sardo, que demonstram informações relevantes para compreendermos como os imigrantes se identificavam. Esses documentos também foram publicados em obra de Darci de Brito Maurici, em 2008. Além disso, uma leitura crítica do livro “Primeira Página da Colonização Italiana em Santa Catarina”, que é a primeira obra a abordar exclusivamente o tema. Outras obras e pesquisas no arquivo público de Santa Catarina e na Hemeroteca Nacional foram feitas, embora sem resultados imediatos. O que realmente mostrou-se produtivo foi a visita a localidade onde a Colônia Nova Itália foi formada. O local ainda é moradia de muitos descendentes que tentam preservar essa história. 

Resultados e Discussão
De acordo com os relatórios provinciais de Santa Catarina (1836-1850), notou-se que a infraestrutura do local era bastante precária. Tal condição, obviamente, implicou dificuldades de adaptação aos imigrantes. Isso porque Boiteux (1998, p. 49) expõem que os colonos eram católicos e não tinham nem capela, nem cemitério. Se quisessem ir à igreja, teriam de fazer uma longa viagem por rio até a freguesia de Porto Belo. Vale ressaltar que a fé naquele período era ainda mais intensa. Portanto, poderia representar um traço de identidade importante e que estava comprometido.
Na região onde os colonos estavam não havia nem mesmo escola de primeiras letras. No entanto, para Luc Montandon Boiteux, o qual assumiu a administração do empreendimento a partir de 1837, a questão educacional era urgente. Assim, já em 1838, uma escola improvisada passou a funcionar na localidade por sugestão dele. Em discurso na sessão ordinária de março de 1840, o então presidente da província de Santa Catarina, Francisco Joze de Souza Soares D’Andrea, sugeriu que fosse criada uma Escola Normal padronizada como a que existia no Rio de Janeiro para que a situação nacional melhorasse. Com certeza, uma maneira de uniformizar a população do Império.
Um elemento bastante frequente nos documentos provinciais é a forma como os imigrantes eram mencionados. Eram referidos como “Colonos” ou “Colonos estrangeiros”, o que implica um distanciamento dessas pessoas em relação ao que o governo considerava como ser brasileiro. Também nota-se que em alguns casos, os presidentes se referiam à Colônia Nova Itália como “Colonia italiana” e não como colônia sarda. Entretanto, é compreensível, visto que o termo “italiana” poderia se referir à península itálica. Em 1836, o que existia era o Reino da Sardenha.
Boiteux (1998, p. 41) acrescenta que a Colônia Nova Itália também foi integrada por 16 colonos nacionais. Eles receberam terras maiores que a dos imigrantes ítalos. Essa prática foi criticada pelo presidente da província de Santa Catarina, Antero Joze Ferreira de Brito, em 1º de março de 1844. Ele defendeu que a distribuição de terrenos e subsídios fossem concedidos de preferência aos nacionais, visto que todo o ônus da sociedade pesa sobre eles. Isso porque os colonos estrangeiros se aproveitariam de direitos, sendo livres para “a qualquer pretensão exagerada, que não é logo attendida, invocarem e ameaçarem-nos com o poder de seus Governos”.
Ainda segundo ele, os colonos deviam ser: “activos, laboriosos, sobrios, de bons costumes, e principalmente se forem Portuguezes e Açorianos, porque tenho em muita conta nestas empresas a identidade de religião, de origem, de usos e costumes dos que as devem levar áo cabo”. O presidente provincial deixa claro o receio que tem de que esses estrangeiros não contribuíssem para o desenvolvimento e identidade da nação. Uma insegurança que se pode julgar normal.
A empresa particular sob o comando de Demaria e Schutel durou de 1835 a 1846. Em 1846, o presidente provincial ordenou a mudança do nome “Colônia Nova Itália” para “Colônia D’ Afonso”. O intrigante é que o nome imposto parece não ter se firmado na localidade. Em documento da Agência Consular da Itália no Estado de Santa Catharina, datado de 1894 e contido na obra de Maurici (2008, p. 293). O certificado atesta que Vicenzo Pera, de 16 anos, é súdito do rei da Itália e natural da “ex Colônia Nova Itália”. Portanto, talvez Vicenzo nem lembrasse ou soubesse que o nome escolhido em substituição ao original foi Colônia D’ Afonso, fazendo assim referência à nomenclatura anterior. Desse modo, mais uma vez há a indicação de que havia ainda um sentimento de identidade italiana, mesmo já estando quase no fim do século XIX e tendo Vicenzo nascido já no império brasileiro.


Conclusões
Conforme podemos observar, a unidade nacional brasileira entre 1836 a 1850, ainda necessitava ser trabalhada. Os 186 colonos sardos chegaram à província de Santa Catarina em 1836. Na época, não fazia nem 15 anos da Independência do Brasil. No início do século XIX, também existiam outros imigrantes ítalos no Brasil, localizados no Rio de Janeiro (Bertonha, 2014, p. 422). Porém, não vieram para o país de forma institucionalizada e com intenção de ficar. Portanto, bem diferentes dos colonos sardos da província de Santa Catarina, os quais permaneceram isolados e provavelmente não tinham outra opção a não ser fortalecer suas terras, suportar dificuldades e integrar-se aos poucos a nascente nação brasileira.
Pode-se perceber nos discursos, falas e relatórios dos presidentes provinciais de Santa Catarina que a preferência era por portugueses, talvez pela língua e costumes que desejavam como padrão para o Brasil Império. Os índios eram referidos como selvagens. Já os alemães eram estimados por serem considerados mais ativos e laboriosos. Sendo assim, os imigrantes sardos poderiam ter ficado no meio termo disso. Sentindo-se, quem sabe, descolados do modelo desejado a não ser pelo fato de serem católicos. A ordem provincial era conceder vantagens em primeiro lugar aos nacionais, já que os estrangeiros poderiam abandonar o país a qualquer momento. Desse modo, os colonos são percebidos como pessoas sem vínculos fortes com o país, como se realmente não fizessem parte integrante do Brasil.


Bibliografia citada
BERTONHA, J. Italianos na cidade do Rio de Janeiro: uma comunidade (re)descoberta. Revista do Arquivo Geral do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n.8, p.415-428, 2014.

BOITEUX, L. A. Primeira Página da Colonização Italiana em Santa Catarina. 2 ed. Rio Grande do Sul: Editora Educs, 1998.

MAURICI, D. B. São João Baptista do Alto Tijucas Grande, 1834 – Do Arraial do Capitão Amorim à Capital Catarinense do Calçado. Blumenau: Odorizzi, 2008.

SANTA CATARINA. Relatórios de Presidente de Província e “Fallas” à assembléia. Disponíveis em:
<http://ddsnext.crl.edu/titles/189?fulltext&item_id=5246#?c=4&m=10&s=0&cv=2&r=0&xywh=-1424%2C-165%2C4638%2C3272>. Acesso em: 18 ago. 2018.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Atividade - Profissão: Professor (a)


Profissão: Professor (a)

Status
De acordo com uma pesquisa realizada em 35 países no ano de 2018 pela Varkey Foundation, entidade dedicada à melhoria da educação mundial, o Brasil encontra-se na última posição do ranking de prestígio de docentes. Tal resultado mostra-se ainda mais alarmante se comparado ao do cenário global, que registrou melhora na percepção do status dos professores.
Menos de um a cada dez brasileiros (9%) pensa que os alunos respeitam seus professores em sala de aula. Para efeito de comparação, a China é o país com melhor avaliação: 81% das pessoas acreditam que os docentes são respeitados por seus alunos.
O levantamento também aponta que 88% dos brasileiros consideram a profissão professor como de baixo status – o penúltimo lugar do ranking, abaixo apenas de Israel, onde 90% dos cidadãos pensam da mesma forma. Talvez por isso, apenas um em cada cinco brasileiros incentivariam o filho a ser professor.



Condição socioeconômica
Em média, o professor dedica 47,7 horas semanais ao seu ofício. Ao analisar os salários correntes e/ou estimativas de remuneração a curto e médio prazo, conclui-se que os professores ganham menos que outros profissionais com ensino superior. Assim, o docente ganharia 39% em comparação a outros profissionais.
Com estas estimativas, 29% dos professores brasileiros complementam sua renda desempenhando outras atividades em setores como prestação serviços, empresarial ou artístico.



Condição de trabalho: escola pública x escola privada
A atividade docente pode ser compreendida como repetitiva, fragmentada em tarefas e submetida a intensos ritmos de trabalho. Isto, associado à desvalorização, constantes exigências profissionais ocasiona um fenômeno social particular do mundo ocidental: o mal-estar docente (SOUZA; LEITE, 2011).
Aos problemas relacionados às condições de trabalho destacam-se os baixos salários, precárias condições de trabalho (temperatura, ruído, superlotação das salas), falta de recursos materiais, dificuldade de participação em cursos de formação continuada, dentre outros (SOUZA; LEITE, 2011).
Lopes e Pontes (2009) buscam, em seu artigo, investigar a possível diferença entre as dimensões de burnout[1] nos professores das redes pública estadual e particular. Os resultados obtidos comprovam que os professores da rede pública estadual possuem índices médios estatisticamente maiores em relação à exaustão emocional.

Processo de formação
A formação de professores, como uma ação do Estado e sua política Educacional, tem inicio no século XIX, mais especifico no ano de 1808, com a chegada da família real ao Brasil. Segundo Gomes (2007), entre as ações a serem executadas por D. João VI no Brasil está:  criação de escolas, ensino leigo e superior. Essas ações tendem a desencadear o processo de formação do profissional professor.
Sobre a formação do professor, Saviani (2009) destaca os períodos desse processo:

1. Ensaios intermitentes de formação de professores (1827-1890). Esse período se inicia  o dispositivo da Lei das Escolas de Primeiras Letras, que obrigava os professores a se instruir no método do ensino mútuo, às próprias expensas; estende-se até 1890, quando prevalece o modelo das Escolas Normais.
2. Estabelecimento e expansão do padrão das Escolas Normais (1890-1932), cujo marco inicial é a reforma paulista da Escola Normal tendo como anexo a escola-modelo.
3. Organização dos Institutos de Educação (1932- 1939), cujos marcos são as reformas de Anísio Teixeira no Distrito Federal, em 1932, e de Fernando de Azevedo em São Paulo, em 1933.
4. Organização e implantação dos Cursos de Pedagogia e de Licenciatura e consolidação do modelo das Escolas Normais (1939-1971).
5. Substituição da Escola Normal pela Habilita-ção Específica de Magistério (1971-1996).
6. Advento dos Institutos Superiores de Educação, Escolas Normais Superiores e o novo perfil do Curso de Pedagogia (1996-2006).

Todo esse processo, até 1988, acabou servindo como um auxilio e uma base para a elaboração em 1988, juntamente com a nova constituição, do Sistema Educacional Brasileiro e em 1996 para a Lei n.º 9.394, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que regem a estrutura e o funcionamento do sistema educacional. A formação dos professores é regulamentada então por esse sistema. O sistema educacional brasileiro, em sua modalidade educação básica é dividido em
1.      Educação Infantil: duração de 4 anos, com alunos de 0 a 3 anos;
2.      Pré-escola: duração de 3 anos, com alunos de 4 a 6 anos;
3.      Ensino Fundamental: duração de 9 anos, com alunos de 6 a 14 anos;
4.      Ensino Médio: duração de 3 anos, com alunos de 15 a 17 anos;
A partir 1988 e 1996, nesse contexto pós LDB (9.394/1996) passa a ser exigido para professores da educação básica, independente da modalidade, formação em curso superior.
Necessidade do curso superior expressa na LDB (9.394/96), artigo 62:
Art. 62 – A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-a em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em Universidades e institutos de educação, admitida como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do Ensino Fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal.
A partir disso, segundo autores como Borges et al (2011), Gatti (2010) os cursos de formação de professor foram concedidos às Universidades, com os cursos de licenciatura. Os cursos de licenciatura têm em tese o objetivo, pela legislação, de formar professores para a educação básica (pré-escola, ensino médio, ensino profissionalizante, educação de jovens e adultos, educação especial).
No curso de licenciatura, independente do curso (Pedagogia, Biologia, Física, Geografia, História, Matemática, Química, Educação-física, Letras) o aluno passa por disciplinas que buscam: visam o como ensinar, grupo de disciplinas de Didática, Metodologia e Práticas de Ensino; relativas a Educação Especial; para docência, como Estágio; conhecimentos específicos da área, os conteúdos da área, os quais serviram de base para o ensino de seus futuros alunos, auxiliados pelo livro didático e pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). (FREITAS, 2002; GATTI, 2010)

Perfil profissiográfico (Brasil e Mundo)
O Perfil Profissiográfico Previdenciário – PPP, assim como é definido pela site da previdência do governo federal, trata-se de um formulário que tem como objetivo coletar as informações relativas ao empregado, ao emprego  a atividade que exerce, o agente nocivo ao qual está exposto, a intensidade e a concentração do agente, exames médicos clínicos, além de dados referentes à empresa.
Em relação a condição de trabalho, Souza e Leite (2011) apresentam algumas condições, como: “baixos salários; precárias condições de trabalho, com ruído e superlotação nas salas; longas jornadas de trabalho; as angústias geradas pelas exigências socais da atividade; a inadequação do espaço físico; o desgaste físico em permanecer em pé por longas horas, corrigir caderno e provas sentados por longas horas; pouco tempo de pausa e descanso.
E, em relação a saúde a profissão pode acarretar alguns problemas como: Estresse emocional, síndrome de burnout, e o mais se destaca é o mal-estar docente. O mal-estar docente consiste em uma série de condições como a manifestação de sentimentos negativos como: angústia, alienação, ansiedade, desmotivação, exaustão emocional, frieza, insensibilidade e postura desumanizada. (SOUZA e LEITE, 2011)

Referências
Bibliografia
BORGES, M. C.; AQUINO, O. F. ; PUENTES, R. V. Formação de professores no Brasil: histórias, políticas e perspectivas. Revista HISTEDBR On-line, v. 11, n. 42, p. 94-112, 2011.
FREITAS, H. C. L. de. et al. Formação de professores no Brasil: 10 anos de embate entre projetos de formação. Educação & Sociedade, 2002.
GATTI, B. A. Formação de professores no Brasil: características e problemas. Educação & Sociedade, v. 31, n. 113, p. 1355-1379, 2010.
GOMES, L. 1808. São Paulo: Planeta, 2007.
LOPES, A. P.; PONTES, E. A. S. Síndrome de Burnout: um estudo comparativo entre professores das redes pública estadual e particular. Revista semestral da associação brasileira de psicologia escolar e educacional, v. 13, n. 2, p. 275-281, jul./dez. 2009.
LOUZANO, P. et al. Quem quer ser professor? Atratividade, seleção e formação do docente no Brasil. Estudos em avaliação educacional, v. 21, n. 47, p. 543-568, 2010.
SAVIANI, D. Formação de professores: aspectos históricos e teóricos do problema no contexto brasileiro. 2009.
SOUZA, A. N. de.; LEITE, M. de P. Condições de trabalho e suas repercussões na saúde dos professores da educação básica no Brasil. Educação & Sociedade, Campinas, v. 32, n. 117, p. 1105-1121, out./dez. 2011.

Artigo da Fundação Joaquim Nabuco
Sistema Educacional do Brasil

Documento Varkey Foundation
Global teacher status index 2018

Lei
LEI Nº 9.394, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1996

Notícias



[1] Burnout é uma expressão da língua inglesa que pode significar “perder energia”. A Síndrome de Burnout é o reflexo do trabalho como forma de desprazer. (LOPES; PONTES, 2009)